O truque da sacolinha que embrulha o sapo

Proclamar ao respeitável público que plásticos oxidegradáveis reduzem os resíduos sólidos urbanos a um pó de traque é um truque que certamente induzirá à má-educação de descartar lixo em qualquer lugar, sem qualquer cuidado, agravando o problema da poluição ambiental. Fazer leis que imponham aos estabelecimentos comerciais brasileiros o fornecimento de sacolinhas de um só tipo de material aos seus clientes é, no mínimo, estultícia mercadológica.

Respeitável público! Eis aqui uma sacolinha de plástico que chamaremos de biodegradável. Todos os supermercados serão obrigados por lei a fornecê-las aos seus clientes, por módicos centavos. Vocês compram tudo o que quiserem, colocam nas suas sacolinhas mágicas, levam para casa, descartam no lixo e…. pípti pópti pum! Em pouco tempo as sacolinhas se degradarão, sem prejudicar o meio ambiente. Esfarelam-se! Viram pó!

Baseado na realidade, o ilusionismo fascina porque falseia os sentidos do espectador. No truque, pelo menos o sacoleiro mágico diz uma verdade: as sacolinhas viram pó. Mas embrulham o sapo que o povo vai ter que engolir.

É verdade, os plásticos oxidegradáveis não desaparecem na natureza pois não são biodegradáveis, mas degradáveis. O truque é que se fragmentam em pequenas partículas que se dispersam, tornando a sua coleta e a sua reciclagem absolutamente inviáveis e gerando uma “poluição invisível”, que causará danos ao meio ambiente como quaisquer outros poluentes.

Trocada em miúdos, a biodegradação é o processo que os seres vivos, pequenos, médios, grandes ou microscópicos (como os micróbios) usam para decompor os materiais mais complexos em substâncias mais simples, como o monóxido de carbono (CO2) e água (H2O). Mas para que isso aconteça, de um modo geral, é preciso de ar (oxigênio), luz, umidade, boa temperatura e uma adequada mexida, de vez em quando.

Há exceções, que só confirmam as boas regras: “bichinhos” que não precisam de ar para “digerir” o que comem; “organismos microscópicos” que, sem luz, nas fossas oceânicas, comem e descomem seus banquetes naturais. Migalhas de pão, deixadas nos cantos da cozinha, desaparecem mais rapidamente, a olhos vistos, por ação das formigas ou dos bolores. O falecido, enterrado no jazigo da família, vai demorar mais tempo até lhe sobrarem só os ossos. Faraós, enrolados em tiras de betume e protegidos na seca escuridão das pirâmides, podem durar intactos por séculos. Aos mamutes descobertos em geleiras, só lhes faltam o sopro da vida e o berro.

Já os plásticos, como madeiras conservadas, cascos de tartaruga e seda pura (constituídos de “plásticos naturais”) duram como a eternidade. Deles se diz que não são biodegradáveis. Mas que se entenda, que abandonados à própria sorte, jogados por aí, como as latinhas de cerveja arremessadas na rodovia, no caminho da praia, tais produtos não são “comidos” em tempo razoável por bactérias, fungos e assemelhados e transformados em suas expressões mais simples, como o gás carbônico e a água.

Qualquer resíduo deve ser descartado adequadamente

Proclamar ao respeitável público que plásticos oxidegradáveis reduzem os resíduos sólidos urbanos a um pó de traque é um truque que certamente induzirá à má-educação de descartar lixo em qualquer lugar, sem qualquer cuidado, agravando o problema da poluição ambiental. Fazer leis que imponham aos estabelecimentos comerciais brasileiros o fornecimento de sacolinhas de um só tipo de material aos seus clientes é, no mínimo, estultícia mercadológica. Semelhante à anedótica proposta de revogar a lei da gravidade ou do projeto de lei submetido à Câmara de Quixeramobim (CE), em 1991, determinando que fossem pintados de amarelo fosforescente todos os rabos de bovinos, ovinos e caprinos do município, para evitar que fossem atropelados.

Qualquer resíduo deve ser descartado adequadamente, até virar gás, água e composto de matéria mineral. Europeus e norte-americanos, que costumam ser usados como paradigmas contra nossas mazelas, estabelecem em suas normas que para um produto ser classificado como biodegradável é necessário que se degenere biologicamente em até 180 dias e que 60% (para os norte-americanos) e 90% (para os europeus) do carbono contido no produto se transforme em água, composto e CO2. Isto mesmo, um dos maiores gases responsáveis pelo efeito estufa.

Esse tempo razoável de se decompor não está bem claro para os humanos. Durar é bom, mas quanto e para quê ninguém sabe. A eternidade? Quem estará lá para conferir o que deu certo, com quais critérios? O que se pode medir é a história registrada e a que se vai revelando pelo conhecimento e pela exploração do planeta. Nos museus, por exemplo, há múmias não totalmente degradadas em perfeito estado de exposição. Em bibliotecas protegidas, repousam livros de papel de tempos imemoriais, com letrinhas legíveis; em represas bem abastecidas, descansam madeiras de ótima qualidade das florestas submersas. Os arqueólogos contemporâneos, que literalmente chafurdam no lixo da modernidade, têm encontrado com frequência jornais e pés de alfaces fresquinhos, enterrados há décadas, em suas sondagens nos mais irrepreensíveis aterros sanitários do primeiro mundo. Mas não se deparam com mais de 3% de plásticos, somadas fraldas, embalagens, cabeças de bonecas e pedaços de canos. Simplesmente porque isso não vai para a vala comum.

Em São Paulo, garrafas de plástico e pneus boiam nos dois grandes rios metropolitanos. E a companhia de saneamento local registra, há anos, um volume intratável de camisinhas-de-vênus nas recepções de suas estações de tratamento de esgotos, fruto de um compulsivo e sorrateiro hábito de despachá-las, com a descarga, depois do adequado uso, pelos vasos sanitários.

Consumir com responsabilidade e sem desperdícios

Mas essa má-criação das pessoas não isenta os plásticos, pois se estima que alguns deles levam séculos para se degradar, tal qual paleontológicos tecidos, esqueletos, lanças, cerâmicas, lendas, truques e fantasias. Na matemática dos norte-americanos, que admitem jogar fora umas 160 milhões de toneladas de lixo por ano no ambiente, pelo menos 11 milhões de toneladas contam como plásticos residuais, perto de 30% do total em volume, considerando que o lixo plástico é mais leve e ocupa mais espaço. Talvez por isso, há tempos, esses refugos já não estejam indo mais para os aterros sanitários em consequência do hábito de separá-los para destino mais adequado: o da reciclagem ou o da geração de energia.

Coletar e reciclar ainda são a melhor alternativa para o descarte dos plásticos, conduta que no país vem se expandido à razão de 50 mil toneladas por ano (mais de meio bilhão de toneladas, em 2006), gerando perto de 20 mil empregos diretos. Não é a solução da pobreza, apenas uma opção que se extingue à medida que os cidadãos possam ter melhor educação, instrução e trabalho. E a sociedade aprenda a consumir com responsabilidade e sem desperdícios.

Os plásticos são como outros materiais usados intensivamente para fins energéticos, como a madeira, o gás natural, o carvão e o petróleo. Mas seus resíduos podem gerar mais energia com menos emissão de gases nocivos para a atmosfera em relação a outras classes de lixo e de materiais semelhantes. À medida que se desenvolvam novas formas adequadas de queimar detritos para fins úteis, não há porquê desprezar a opção que certamente será útil para eliminar o que se joga fora definitivamente depois da vida aproveitável. Vários países já operam em larga escala suas usinas de energia a partir da queima de plásticos descartados. O Japão tem 190 delas, a França, 130, os Estados Unidos, 89, a Alemanha, 58, e a Itália, 44.

Não há soluções únicas, milagrosas ou exclusivas, como as dos elixires, que tudo curam, das entradas às saídas, dos intestinos às superfícies e aos humores da alma. Ou dos truques e das leis de condão, similares à da varinha da protetora da Gata Borralheira, que transformava abóbora em carruagem, só até a meia-noite.

Queimar, deixar se decompor, dissolver ou enterrar continuam sendo as opções da humanidade para dar destino final àquilo que já não tem mais jeito. E essas parecem ser ainda as respostas mais inteligentes para a assertiva da esfinge moderna: recicla-me ou te devoro. O que não se deve, pela ótica da ética da sobrevivência, é enganar o distinto povo, varrer o lixo para baixo do tapete, arriscando ser devorado pela mulher com cara de passarinho e rabo de leão, ou pela história, “senhoras” pacientes, tolerantes e implacáveis.

Sacolinhas 2 sítio 300x263 O truque da sacolinha que embrulha o sapo

Anthony de Christo é editor sênior do Economia Interativa. Autor do livro O Plástico em Sua Vida, Dezembro Editorial, 2005.

** Publicado originalmente no site Economia Interativa.

(Economia Interativa)

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