Depoimento de um Superdotado – Vale a leitura

eisteinxxxO texto abaixo é um depoimento de um superdotado (indivíduo com capacidade intelectual muito acima da média),  (…) vale a pena ler, pela sobriedade e, principalmente, pela conclusão ao final. Se você quer fazer algo pela educação deste país, por favor divulgue este texto.

Muito se diz sobre as condições das universidades brasileiras, do estado em que se encontra a educação como um todo (ou a falta desta) e o debate sobre o que é, ou não, adequado a um professor de uma universidade pública exigir. Isso parece seguir uma argumentação estreita que sutilmente ignora o que acredito ser o verdadeiro problema — no Brasil, não temos uma sociedade. Acho risível quando alguém argumenta que é necessário convencer a sociedade brasileira da necessidade de ensino e pesquisa, de explicar o tipo de trabalho que lá é executado. Explicar a quem?

Se já irritou-se com o parágrafo acima, ótimo. É desta irritação que preciso. No que segue, pretendo lhe convencer de que há problemas infinitamente mais profundos com a aglomeração de nascidos no Brasil, de tal maneira que mazelas que nascem em setores distintos, têm profundo impacto na formação de uma classe de cientistas. A forma desta argumentação é a de um relato pessoal, com alvo na minha formação acadêmica, porém contendo eventos desde minha infância, que julgo relevantes para esta exposição.

Apresento uma forma leve de autismo, conhecida como síndrome de Asperger, que afeta apenas a comunicação não verbal. A comunicação verbal, nestes indivíduos, ou não é afetada, ou pode até mesmo apresentar-se superior à média. Eu era uma criança eloquente e isolada. Aos quatro anos de idade eu sabia tudo o que se poderia saber (para um garoto que cresceu em uma cidade do interior, com parco acesso à informação) sobre dinossauros. Não era uma daquelas coisas que toda criança tem. Eu podia discorrer sobre taxonomia, anatomia e fisiologia das principais espécies. Aos seis, comecei a estudar anatomia humana, em livros universitários. A capacidade que tinha de tagarelar sobre tais assuntos provavelmente ocultou meu isolamento e minha incapacidade de me relacionar com quem quer que fosse (com uma única exceção) e minha condição permaneceu sem diagnóstico até que eu completasse 34 anos. Em outras palavras, um caso de autismo passou completamente despercebido, por todos os tipos de educadores que uma pessoa possa ter.

Durante anos flertei com a biologia, mas foi aos 10 anos de idade que alguns acontecimentos mudaram meu rumo de estudos. Em um livro de biologia, me deparei com uma equação que dizia que a derivada temporal do número de indivíduos (em uma cultura de bactérias) era proporcional ao número de indivíduos. Como não compreendi o significado daquilo, recorri ao meu pai (a única pessoa com quem de fato me relacionava), que forneceu uma interpretação em termos de razão de pequenas variações. Como um amigo havia emprestado um computador a meu pai (que naquela época era uma raridade), aprendi a programar e resolvi numericamente a equação (anos mais tarde em meu curso universitário aprendi que o método que desenvolvi era chamado “método de Euler” — o curioso é que reprovei na disciplina). Meu pai, um pouco intrigado com o feito, me sugeriu a leitura de um livro (o único sobre física na biblioteca pública da minha cidade): “Física Quântica” de Eisberg e Resnick. Confesso que não entendi muito sobre o desenvolvimento matemático do texto, mas os conceitos (as ideias) eu assimilei todos. Aí começaram os problemas.

O que ocorreu a seguir fez minha confiança nos educadores dar seu último suspiro e confirmou minha impressão de que a escola era uma prisão que eu deveria tolerar se quisesse trabalhar com ciências. Na quinta série do ensino fundamental há uma “matéria” chamada “ciências”. Pois bem, geralmente é ministrada por um pedagogo. Em uma das primeiras avaliações, eis a pergunta: “como fazemos para medir a temperatura de algo?”. A resposta esperada era: “usando um termômetro”. Mas achei “algo” um tanto vago, poderia ser a superfície de uma estrela, por exemplo. Para mim, a resposta “termômetro” era absolutamente insuficiente. Além do termômetro, descrevi processos de pirometria e outras maneiras de utilizar a radiância espectral de corpo negro para tanto. Outras questões formuladas de maneira absolutamente imprecisa receberam como resposta um “por favor, seja mais específico”. Além de receber uma das notas mais baixas da turma, a educadora, em tom de chacota na frente da sala toda, disse que não era para eu inventar coisas. Se não tivesse estudado, bastava deixar as questões em branco. Do contrário, eu poderia ficar com fama de mentiroso. Ao saber sobre minha nota baixa, meu pai, atento ao fato de que eu não era exatamente ignorante em ciências, foi à escola e exigiu ver minha prova. Com a eloquência que lhe era peculiar, conseguiu convencer a direção de que a educadora não era qualificada para aquela disciplina. Minhas notas aumentaram, mas a educadora permaneceu. Eu nunca havia comentado com ninguém sobre o dito em sala. Tenho certeza de que, não fosse o fato de ser autista, isso poderia ter abalado meu orgulho e minha vontade de seguir carreira como homem de ciências.

O que abalou realmente minha vontade foi meu ingresso em um colégio técnico. Era um curso técnico em bioquímica. Permaneci dois meses na escola. Nesse ínterim, alguns professores me odiaram, outros me adoraram e ninguém ficou aparentemente em um meio termo. Este fenômeno também ocorreu com meus colegas. O curso era em período integral. Agora, além de não ter mais tempo para estudar (pois ficava o dia todo na escola), tinha que conviver o dia todo com outras pessoas. O contato social, dentro dos padrões de violência e assédio que outros adolescentes acham natural, foi simplesmente insuportável. Ao final de dois meses, eu tive meu primeiro colapso nervoso. Sem que ninguém soubesse. Para minha família, minha decisão de sair do colégio foi apenas devido ao fato de eu não conseguir lidar com notas baixas (ninguém se preocupou em verificar que minhas notas eram muito boas — meu pai já havia falecido há um bom tempo). Ao voltar para o ensino médio convencional (o nada bom e velho colegial), minha decisão de nunca mais pôr os pés em um laboratório estava tomada.

Terminado o colegial, resolvi procurar emprego, dado que cursar uma universidade estava fora de questão. Por insistência da minha então namorada, comecei a frequentar um cursinho pré-vestibular. Não demorou muito para eu descobrir que eu nunca duraria mais que alguns dias em um emprego regular (é difícil ser vendedor se para você é impossível não dizer a verdade, por exemplo) e vi em prestar um vestibular uma oportunidade para que minha família me custeasse mais um tempo até que eu resolvesse meu problema de renda própria. Quanto ao cursinho, no quarto mês eu não assistia mais às aulas. Mas era “monitor” de física, química, matemática, biologia e história geral.

Entrei no curso de física da Universidade de São Paulo. Em dois meses tive meu segundo colapso nervoso. A explicação da minha família foi a mesma de antes. Na universidade em si, eu fui bem tratado (salvo um único caso de uma professora que tratava a todos como se fossem idiotas preguiçosos). Mas a cidade de São Paulo é insuportável a um autista. O ritmo de vida e as poluições visual e sonora me levavam a dois ataques de pânico por dia. Um na ida e um na volta. As autoridades sabem disto e oferecem transporte especial para portadores de autismo. No papel. Na prática, é impossível alguém conseguir este “benefício”. Mas não importa, pois na época eu ainda não havia recebido um diagnóstico — ou sequer acompanhamento psicológico.

Passei o resto do ano fazendo “bicos”, como instalações elétricas, aulas particulares etc. e mais um ano no sul de Minas Gerais procurando emprego. É curioso como a análise de currículo é feita pelas empresas. Alguém lhe pergunta: você sabe fazer manutenção nestas máquinas? Você responde: me dê um manual que em três dias eu saberei. A pessoa ri e coloca seu currículo embaixo da pilha. A esta altura eu já tinha percebido que dizer coisas do tipo — aos doze anos eu sabia como cada tipo de usina nuclear funciona, em detalhes, acho que dou conta de uma máquina de cortar papel — não iria me ajudar.

Como não podia mais me manter, resolvi retomar a ideia do curso de física. Desta vez eu escolheria o curso pela cidade, não pelo seu “ranking”. Escolhi Curitiba, digo, a Universidade Federal do Paraná. Nunca imaginei que uma cidade pudesse ser tão cruel com seus moradores, mas isso eu comento depois.

Ao chegar no curso de física eu já tinha uma ideia razoável sobre cálculo diferencial e integral e física básica. Queria trabalhar com sistemas dinâmicos, particularmente, caos. É impossível um aluno de primeiro ano conseguir a atenção de quem quer que seja no departamento de física. É pressuposto que você seja ignorante e que está lá pedindo para trabalhar porque é arrogante, inexperiente e imbecil.

Depois de três meses de aulas — surpresa — greve. Durante a greve, organizamos, eu e alguns colegas, encontros para que pudéssemos continuar estudando durante este período. Assim, alguns de nós poderiam adquirir pré-requisitos que faltavam para o curso e até mesmo ir um pouco adiante nas disciplinas. Após meses em greve, o retorno foi estafante. Passamos dois anos seguidos sem férias, e eu — no meu turno duplo usual — fui levado à exaustão. Mas não foi apenas a exaustão o problema. Nos dois primeiros anos, tive boas notas em disciplinas (e vi colegas extremamente competentes reprovando) e umas poucas brigas com professores. Tive alguns bons professores, mas tive dois ou três professores que simplesmente não faziam ideia do que estavam falando. Mas até aí tudo bem, a gente discutia, eles se davam por convencidos e todo mundo ficava feliz. No segundo ano me aproximei de alguns professores do departamento de matemática e a experiência foi muito boa. Mas sempre que começava a trabalhar em alguma coisa por lá, algo dava errado por algum motivo aleatório (por exemplo, comecei um bom trabalho com um professor que, quando começou a deslanchar, ele recebeu uma oferta irrecusável de concluir seu doutorado em outra instituição). Decidi que trabalharia sozinho, como sempre fiz. Porém, no terceiro ano tudo mudou. Comecei a ter aulas com “especialistas” nas disciplinas, que simplesmente não iam deixar barato um simples aluno questionar sua autoridade no assunto. Para argumentar que não é arrogância minha, gostaria de citar algumas pérolas que ouvi em sala de aula que me fizeram levantar e sair. Eis os diálogos.

Aula de eletromagnetismo

Depois de discutirmos por causa de alguns problemas conceituais relacionados a algumas aproximações em fórmulas, o professor, já um pouco irritado comigo, tenta envolver um objeto infinito em uma superfície gaussiana.

— Professor, essa superfície gaussiana não se estenderia até o infinito?

— Sim, e daí?

— Você não pode fazer isso.

— Isso é porque você não sabe o que é o infinito. O objeto é infinito, mas eu posso ir um pouco além, que ainda é infinito, e envolver o objeto! Não há problema com isso.

— Não professor, o problema é que este objeto não é integrável.

— Esta é a diferença entre física e matemática! Isso aqui é física, não matemática!

— Desculpe professor, mas para mim esta é a diferença entre certo e errado. Isto que está aí está errado.

— Se você tivesse estudado física básica lá no livro do Halliday, saberia como fazer essa conta.

— Eu estudei física básica professor, mas não por este livro, justamente por estar cheio de erros grosseiros como este.

— Por qual livro estudou?! Todos os livros fazem as contas deste jeito.

— O Curso de Berkeley não.

— [Risos, em tom de chacota] Se você estudou mesmo pelo curso de Berkeley, não quer vir aqui e dar aula no meu lugar? [Mais risos]

— Não sou pago para isso. [Levanto, pego minhas coisas e saio]

Reprovei nesta disciplina.

Aula de física moderna

Professor divagando sobre um sistema com um só átomo. Cabe ressaltar que já havíamos discutido nesta aula e ambos, eu e professor, já estávamos bastante irritados um com o outro.

— E este seria o comportamento se fosse possível baixar a temperatura do átomo a zero absoluto.

— Professor, o que exatamente você quer dizer com “temperatura do átomo”?

— Como assim? É a temperatura! Você deve saber o que é temperatura, está no terceiro ano de um curso de física!

— É que o sistema tem um único átomo, professor!

— E daí?

— É que… Quer saber, deixa pra lá. [Levanto e saio]

Também reprovei nesta disciplina.

Aula de introdução à relatividade restrita

Eu poderia escrever um livro com esta. Era uma disciplina optativa, dada por um professor absolutamente inepto, que insistia em ministrá-la. Eu não compreendo. Há professores capazes de ministrar esta disciplina. Mas aparentemente se calavam sobre a capacidade daquele indivíduo. Se a universidade pública brasileira fosse um ambiente sério de trabalho, este cidadão estaria certamente na rua. Mas professores universitários são intocáveis.

Eis alguns diálogos.

— Assim, a velocidade da luz é sempre “c”, independentemente do referencial ou do meio em que se propaga.

[Um colega, mais novo no curso e excelente aluno, pede a palavra e pergunta de modo polido]

— Mas a velocidade da luz não é diferente em diferentes meios?

— Não, não é não. A luz sempre se propaga no vácuo, mesmo dentro de meios materiais, porque a matéria é um grande vazio.

[Eu, sentindo um grande vazio por dentro, resolvo intervir — uma vez que meu colega me lançou um olhar de “eu ouvi mesmo isso?”]

— Professor, desculpe, mas a luz se propaga em diferentes meios com velocidades diferentes. Isso depende inclusive da frequência da luz.

— Se você leu este absurdo em algum lugar, pode jogar o livro fora!

— [Eu, já irritado] Próxima aula eu trago um prisma para cá. Assim, quem sabe, podemos reescrever o livro que você usa para sustentar essa bobagem.

— Antes de você se dirigir a mim neste tom, resolva as equações de Maxwell em um meio material. Enquanto você não souber fazer isso, fique quieto e veja se aprende alguma coisa.

[Eu levanto e saio — e vários colegas me acompanharam]

No dia seguinte, fiz questão de ir à sala deste professor com cinco folhas manuscritas que continham a solução da referida equação de ondas. Ele olhou a solução e começou a falar sobre o tempo em que esteve no Caltech… Ele nunca se retratou perante a sala.

Algumas aulas depois.

— (…) E fica evidente que a massa de repouso do fóton é zero.

— [Eu, já irritado] Professor, para testar experimentalmente esta afirmação, como fazemos para medir a massa do fóton no referencial em que ele está em repouso?

— Não pode! Um fóton nunca está em repouso!

— Se um fóton nunca está em repouso, então não faz sentido falar em “massa de repouso”.

— Isso é uma abstração! É a massa que o fóton percebe em seu referencial próprio!

— Professor, não existe referencial próprio de nada que esteja com a velocidade da luz…

— “Tá aqui”! No referencial de repouso a massa é zero! Qual a dificuldade de entender isso?!

— Realmente professor, isso me escapa à compreensão. [Levanto e saio.]

Eu poderia comentar sobre sua exposição a respeito do paradoxo dos gêmeos, mas como quase ninguém formula isso adequadamente (uma vez que, adequadamente formulado, não é um paradoxo), não seria tão representativo. Curiosamente, nesta disciplina eu passei.

Fim da aula.

Na metade deste ano, eu tive mais um colapso nervoso. Porém, agora eu havia conseguido convencer minha família de que precisava de um psiquiatra. Comento isso porque alguém poderia argumentar que eu já era adulto e não precisava da aprovação da minha família para mais nada. A verdade é que não se consegue atendimento na rede pública de saúde para isso. Muitos alunos têm problemas com estafa, depressão, ou mesmo apenas precisam de um apoio psicológico para enfrentar as drásticas mudanças que ocorreram em sua vida neste período de ingresso na universidade. Nem mesmo a universidade é sensível a isto. Por parte da universidade, nunca tive qualquer tipo de atendimento ou apoio. A UFPR é um grande colégio em que os alunos passam parte do dia para conseguir um papel. A diferença é que a merenda é paga.

O diagnóstico que recebi foi o de depressão. Passei a tomar antidepressivos que rapidamente me levaram a um surto psicótico (dado que não era este o problema). Abandonei o curso e o boato que corria no departamento era de que eu estava tendo problemas com drogas (tecnicamente é uma versão adequada, mas não com a conotação que isto carregava).

Quarto ano. As primeiras aulas de “Métodos Matemáticos em Física Teórica” (acho criminoso permitirem que físicos ministrem esta disciplina). Reprovei ao todo cinco vezes nesta disciplina. Esta era minha segunda tentativa.

— Definimos então um número racional como sendo um número na forma p/q.

[Eu penso: você define, eu não — mas eu não vou falar nada, eu não vou falar nada…]

— Para definir os números reais, fazemos assim: tomamos os números racionais e fazemos a união com os irracionais que são definidos como sendo elementos do conjunto [e escreve na lousa] {x | x diferente de p/q} [Eu penso: legal, uma bicicleta é um número real. Eu não vou falar nada, eu não vou falar nada, eu…]

Um pouco depois:

— Tem gente que diz que números complexos são um espaço vetorial. Mas isso não é verdade porque eles são números!

Eu solto um — “Aí não dá!” — infelizmente em voz alta, e saio da sala.

Outra tentativa nesta disciplina. Em uma avaliação, em uma das questões, pedia-se a solução de uma equação diferencial ordinária. Eu não resolvi a questão. O diálogo ocorreu no dia em que a prova foi entregue, supostamente corrigida.

— [Eu, de modo polido e cauteloso] Professor, não entendi muito bem esta questão. A condição inicial fornecida está em um ponto de singularidade da equação.

— Todo mundo resolveu a equação, menos você.

— Sei, mas a condição inicial está em um ponto de singularidade. Pode me explicar como esta informação pode ser propagada pelo sistema, uma vez que se encontra em um ponto de singularidade?
— [O professor, visivelmente alterado, subindo seu tom de voz]

Olha aqui, não é culpa minha se você não sabe cálculo!

Entreguei a prova e saí sem dar uma palavra.

Na mesma tentativa, no final da disciplina. O assunto era teoria de grupos.

— Na física lidamos com grupos contínuos e discretos. Vou falar só sobre os discretos porque os contínuos não têm muita aplicação em física.

— [Eu não me contive] Professor, grupos de Lie não têm muita aplicação em teorias de calibre, por exemplo? [Era uma pergunta válida porque se ele ia descartar um tópico da ementa, eu queria saber o motivo]

— Não,… Não tem, não.

— Mas eles não são usados para descrever as simetrias dos problemas?

— É, mas isso é a parte matemática. Na hora de fazer as contas a gente não usa nada disso.

[Ok, prometi a mim mesmo que ia ficar quieto]

Depois de um tempo, na mesma aula.

— Então, os grupos discretos são aqueles que contém um número finito de elementos. Chamamos de grupos contínuos aqueles que não são discretos.

— [Eu TINHA prometido que iria ficar quieto] Professor, há um problema aqui, porque grupos discretos podem ser vistos como “contínuos”, em um sentido apropriado; e há grupos que não são discretos que são descontínuos… [tudo bem, no meio da frase me passou pela cabeça que talvez ele nunca tivesse ouvido falar em topologia, mas eu tinha que dizer isso]

— Qual é o seu problema? Tente imaginar o que eu estou dizendo! Ou uma coisa é discreta, ou é contínua! Não pode ser tão difícil para alguém entender isso!

[Como sou idiota! Não mereço estar nesta aula. Levantei e saí]

Estes são apenas alguns dos diálogos surreais dos quais participei. As características da minha memória me impedem de esquecer o lamaçal de desgosto que foi meu curso.

Nesse ínterim, tive um problema sério em um joelho. Passei um ano e meio sem conseguir dobrar minha perna direita. Andava com muita dificuldade e o atendimento na rede pública de saúde não chegou antes que eu tivesse uma atrofia muscular séria. Abandonei o curso. E o problema (no joelho) foi resolvido, por um ortopedista particular que se condoeu, assumindo boa parte do custo da medicação, em vinte minutos. Comecei a ter dúvidas sobre o que minha pátria realmente esperava de mim (ou do que eu poderia esperar dela).

Depois de algum tempo, fiz meu reingresso no curso prestando um novo vestibular. Muita gente reprova este tipo de atitude, defendendo uma política rígida com relação a jubilamento, argumentando que pessoas assim tiram a vaga de alguém que realmente quer estudar. A estas pessoas eu respondo que, com minha nota no vestibular, poucos eram os cursos em que eu não entraria na primeira chamada. E doze anos separavam a conclusão do meu ensino médio do meu vestibular.

Ao concluir o curso, oito anos após seu início, ficou claro que eu jamais seria aceito em um mestrado naquele departamento. Minha carreira acadêmica estava virtualmente encerrada. Durante a graduação, realizei dois estágios. Um em produção de software para química experimental e outro em produção de software para bancos de dados geográficos. Nunca tive oportunidade de trabalhar com física. A única vez que isso ameaçou acontecer (em uma iniciação científica), ficou claro que as metodologias de orientador e orientando eram incompatíveis. Não durou três meses.

No âmbito pessoal o panorama era mais ou menos este. Depois de seis assaltos (quatro à mão armada — em um deles, um dos indivíduos que não estava com a pistola me deu uma facada — a faca estava meio cega e o estrago não foi grande, mas fui deixado semi-nu) e três agressões por gangues (minha mãe morava em um bairro controlado por uma gangue, eu em outro. Os integrantes de uma gangue sempre achavam que eu era da outra e estavam ali para urinar nas árvores deles — contei apenas as agressões sérias — as intimidações foram incontáveis) eu comecei a apresentar um comportamento similar ao dos veteranos de guerra. Até hoje é assim quando ando na rua. Acho natural a semelhança, uma vez que a situação aqui no Brasil é de uma guerrilha urbana. A diferença para outros casos de guerra civil é que, aqui, apenas um dos lados possui armas. O “Estado” nunca me ofereceu segurança ou apoio psicológico. (Aos que achem que talvez seja eu o culpado, por andar em lugares perigosos, ressalto que tudo ocorreu entre 11:00h da manhã e 21:00h — geralmente em lugares de grande circulação de pessoas).

A esta altura já tinha desistido de um tratamento psiquiátrico. Em um ano, percebi que não conseguiria trabalhar em um emprego regular. E meu diploma de nada ajudava. Foi quando minha então namorada (agora esposa) me disse que eu não deveria desistir e que, se os físicos não me quisessem, deveria procurar um mestrado em outra área. Optei por matemática. Eu quase não consegui as cartas de recomendação necessárias. Eu tinha um professor de física experimental com o qual podia contar. Outros professores simplesmente se recusaram. Até mesmo um professor com o qual eu havia feito cinco disciplinas, obtido as melhores notas entre os estudantes (em todas elas) e inclusive sugerido uma modificação em uma dada abordagem a um dado problema que, confessou-me, havia acabado de submeter em um artigo. Sua explicação foi que “não conhecia minha capacidade de trabalho”. O que é necessário para conhecer a capacidade de trabalho de um aluno que quer fazer um mestrado? Eu tive que apelar para meu padrasto, que é professor do departamento de química e conhece minha “capacidade de trabalho”.

Logo no início do mestrado, minha esposa identificou uma medicação que poderia me ajudar. Voltamos ao meu psiquiatra que, um pouco a contragosto, receitou o remédio. Não esqueço sua frase: bem, não faz muito sentido, mas foi a única coisa que nunca tentamos. Em três dias eu estava completamente estável. Terminei meu mestrado com notas bastante razoáveis e uma boa dissertação. Fui aceito no programa de doutorado em matemática aplicada do Instituto de Matemática e Estatística (IME), na Universidade de São Paulo. E o fantasma da cidade pairava novamente. Foi acertado que eu moraria em Campinas e viajaria sempre a São Paulo. Razoável, desde que eu não tenha que pôr os pés fora da cidade universitária.

Continuar o tratamento foi outra história. A referida medicação é usada em pacientes (crianças) que apresentam o chamado transtorno de déficit de atenção com (ou sem) hiperatividade. É usada também como estimulante por indivíduos irresponsáveis, que não têm problema algum, para virar a noite acordado (estudando ou dirigindo caminhões). E novamente o estigma do sujeito drogado batia à minha porta (tecnicamente, bem, vale o mesmo comentário anterior).

O psiquiatra do Hospital Universitário não acreditou muito na minha história e disse que não concordaria com o tratamento. Meu diagnóstico era de depressão e assim eu deveria ser tratado (lembre que foi este tratamento que me levou a um surto psicótico). Concordou em continuar provisoriamente o tratamento depois que elaborei um texto com toda a medicação e posologia que tomei, e quais foram os efeitos, durante nove anos de tratamento (sim, eu tinha tudo anotado). Foi então que me encaminhou para um neuro-psicólogo para que eu fizesse uma avaliação. E aos trinta e quatro anos de idade tive o diagnóstico correto. Nunca mais consegui uma consulta com um psicólogo. Continuo pegando as receitas no HU, mas não sei se posso chamar aquilo de consulta — são dez minutos a cada três meses. Quando tentei obter um atendimento em Campinas, depois de muita espera por um psiquiatra, sou novamente tratado como drogado. A psiquiatra disse que “não acreditava nesta medicação”. Nem mesmo em distúrbios de atenção: “este problema não existe”. Quanto mais aprovaria o uso em alguém cujo problema é outro.

Há quilos de artigos em universidades estadunidenses sobre o uso desta medicação, inclusive casos de sucesso em portadores da síndrome de Asperger (meu caso). Segundo ela, nos Estados Unidos há uma pressão grande dos laboratórios para inventar-se problemas. Com muito custo, consegui convencê-la de que eu era a prova viva de que estes problemas não eram inventados e que a medicação não era inócua. Então ela disse que meu caso deveria ser alvo de pesquisa médica. Ótimo! Era tudo o que eu queria! Há um grupo de pesquisa no assunto no Hospital das Clínicas, na Unicamp. Eu tenho quilos de dados meticulosamente anotados sobre minha vida inteira. Estou muito ansioso para compartilhá-los. Porém, espero há dois anos por um contato com quem quer que seja no setor de psiquiatria daquele hospital. É simplesmente impossível vencer a burocracia para sequer conversar com um pesquisador, ainda que no corredor do hospital.

Eu sou um cientista que não consegue acesso a nenhum pesquisador da área médica. Que raio de ambiente acadêmico é este? Como alguém pode falar em dar satisfação à sociedade, se nem mesmo nós, pesquisadores, temos acesso uns aos outros? Eu não sou ignorante em neurofisiologia, foi uma das primeiras coisas que estudei na vida. Eu posso contribuir, sim.

Quero dizer que foi difícil escrever este texto. Não pelas memórias que me traz (dado que tenho um distanciamento emocional natural destas coisas), mas pelo fato de que, em fevereiro de 2011, contraí uma inflamação no túnel do carpo (na mão direita) por excesso de esforço repetitivo (escrita, no caso). Desde então tenho dores terríveis ao movimentar minha mão.

Consegui atendimento (com muito custo) no HU, em São Paulo, mas para a cirurgia necessária não me garantiram nenhum atendimento pós-operatório.

Tenho muito receio de contrair uma infecção e ter sequelas graves na minha mão, que é meu instrumento de trabalho. Não teria tais receios, não fosse o fato de que agora a apresentação de uma receita médica é indispensável na compra de um antibiótico. Conheço patologia o suficiente para tomar uma decisão mais acertada com respeito à utilização de qual tipo de antibiótico para qual tipo de infecção do que um médico mediano. Mas eu não tenho um papel que diga que não sou idiota. A proibição foi necessária, segundo a Anvisa, porque todo mundo é ignorante (por favor, leia nas entrelinhas da decisão — foi exatamente isso que eles disseram). Inclusive, quando comecei a fisioterapia (na rede pública de saúde de Campinas), tive uma piora absurda. A dor hoje só é suportável porque estudei o necessário de anatomia e fisiologia para perceber que o tratamento estava errado e aprendi os exercícios corretos. Em muitos lugares, se meu emprego fosse formal, minha condição seria caracterizada como acidente de trabalho.

Mas eu não trabalho. Fico o tempo todo estudando.

Estudei durante três anos em uma escola particular, nas quinta, sexta e sétima séries do ensino fundamental. Quando ouço que a educação privada é melhor que pública, acho graça. Estão comparando coisas que não existem. É interessante ressaltar que aquele episódio que narro no início deste texto envolvendo a professora de ciências ocorreu em uma escola particular — considerada então a melhor de minha cidade natal. Foi o ambiente que mais me foi hostil. Minha experiência com escolas públicas e privadas me permite dizer que a escola privada interfere mais na educação de uma pessoa. E a interferência da escola na educação de alguém sempre me pareceu deletéria.

Quando me dizem que o sistema universitário nos moldes do ensino privado (ou mesmo do modelo estadunidense) possui menos vícios que o público, rio por tal ingenuidade (um riso um tanto nervoso, contudo). Justifico esta afirmação com mais uma página de meus dias. Eu já havia concluído minha graduação e procurava desesperadamente por um trabalho. Apareceu então a oportunidade de substituir um professor em uma instituição de ensino privada. Eram duas aulas em cada uma de duas turmas de um curso universitário tecnológico — cálculo e pré-cálculo (seja lá o que isso signifique). A oportunidade era boa pois, apesar de não possuir o título de mestre, não podendo portanto lecionar para cursos superiores, a instituição também mantinha cursos técnicos em nível médio, nos quais não haveria impedimentos burocráticos a uma possível contratação. Para a turma de cálculo, eu deveria “passar” alguns exercícios sobre máximos e mínimos. Tarefa difícil, dado que a turma não sabia o que era um limite. Respirei fundo e comecei a ementa do princípio, discutindo as principais ideias. Ao final das duas aulas, a maioria dos estudantes era capaz de resolver quase que imediatamente os até então impossíveis exercícios e todos afirmavam ter finalmente compreendido a matéria (e pude cumprir o que me havia sido proposto). Não esqueço de um aluno que me disse algo como — “nosso professor fazia isso parecer impossível de aprender, e é tão simples”. Com relação à outra turma, de pré-cálculo, eles inicialmente estavam (muito) agressivos. Foi necessária meia hora de aula para que compreendessem que não havia motivo para agressões e que o aprendizado daquele conteúdo era importante e que poderia ser divertido. Ao final das duas aulas, eu tinha em minhas mãos uma sala de alunos bastante interessados, alguns até mesmo empolgados. Chegou aos meus ouvidos que, na semana seguinte, os alunos de ambas as turmas fizeram um levante para “tirar” seu antigo professor. Tolinhos. Ele era um dos sócios da instituição. Não preciso dizer que nunca mais tive oportunidade de trabalhar em qualquer faculdade privada em Curitiba.

Meu ponto é que em todo lugar há incompetentes espertos. O problema não está nos modelos seguidos, está nos valores que nossa aglomeração de nascidos no Brasil exalta. No português brasileiro, um possível sinônimo para honrado, digno, honesto e culto é trouxa.

Não quero com isso defender o modelo atual de universidade pública. Acho inclusive que o modelo, tal como está, parece ter sido elaborado com a única finalidade de premiar a incompetência e a mediocridade e promover a subversão da cultura científica em uma espécie de culto politeísta, em detrimento de tudo que pareça razoável. A ideia parece ser a de punir qualquer um que possa produzir qualquer avanço.

O que quero argumentar é que os problemas na educação brasileira são apenas um reflexo, um sintoma, de um país doente. Não se cura uma doença apenas tratando sintomas. Temos que tentar avaliar as causas e, a partir disto, tentar um processo de cura. O grande problema aqui é que o paciente não quer ser tratado. Afinal, o Brasil é um dos melhores países para se viver, uma das maiores economias do mundo. Para quê estragar isso? Se alguém tentar dizer que o brasileiro não preza mais sua honra, não valoriza dignidade, não cultiva mais a honestidade (pessoa honesta hoje vira notícia no jornal) e assassinou a erudição, vai receber a resposta — sim, brasileiro não é trouxa não.

Para você que chegou até aqui, eu pergunto: qual o setor da “sociedade brasileira” que me forneceu algum tipo de atendimento? Qual fato mostra que a “constituição brasileira” (que me “garante” certos direitos) não é apenas mais um papel? Meu país não me abandonou — só se abandona aquilo que se tem.

“Sociedade brasileira” é uma expressão que não tem sentido. Nós somos uma aglomeração de pessoas que nasceram no Brasil.

Fonte: Matemática e Sociedade

Anúncios

Faça um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: